Nova Catedral Anglicana do Recife começa a ganhar forma

A Igreja também é feita de caminhos. Há caminhos que começam em uma pequena reunião de pessoas, atravessam décadas, enfrentam tempos de silêncio, perdas e recomeços, até encontrar um novo lugar para continuar anunciando o Evangelho.

A história da Catedral Anglicana do Recife é marcada exatamente por esse movimento: uma comunidade que aprendeu, ao longo dos anos, que uma casa pode mudar, uma estrutura pode desaparecer, mas a fé compartilhada permanece.

Agora, essa história ganha novos contornos. Desde março de 2026, a Diocese Anglicana do Recife acompanha a construção da nova Catedral Anglicana do Recife e do Centro Diocesano, na Rua São Salvador, no bairro do Espinheiro, Zona Norte do Recife.

O projeto nasce em um ano especialmente simbólico: enquanto a Diocese celebra seus 50 anos de criação, a Catedral recorda uma década desde sua reabertura e se prepara para inaugurar um novo capítulo de sua caminhada.

Mais do que levantar paredes, erguer lajes e construir ambientes, a obra representa a esperança de uma comunidade que deseja novamente ter uma casa para celebrar, formar, acolher e servir. O novo espaço está sendo pensado para reunir a vida litúrgica da Catedral e diferentes dimensões da missão diocesana, tornando-se lugar de encontro, comunhão, formação e serviço.

As obras avançam de maneira positiva. Mesmo diante do período de fortes chuvas registrado nos últimos meses, que trouxe desafios naturais ao cronograma, os trabalhos conseguiram manter um bom ritmo. Neste momento, a construção se aproxima de uma das etapas mais importantes: a conclusão da estrutura.

A expectativa é de que, no início de setembro, seja lançada a última laje. Com ela, será encerrada uma fase fundamental da obra e terá início uma nova etapa, marcada pelo fechamento da edificação e pelos primeiros serviços de acabamento. Aos poucos, aquilo que hoje se apresenta principalmente como uma grande estrutura de concreto começará a revelar os espaços que, no futuro, receberão pessoas, celebrações, encontros e histórias.

Uma Catedral que nasce de uma história de perseverança

 Para compreender a importância dessa construção, é preciso voltar no tempo. A história do Bom Samaritano começou antes mesmo de existir uma Catedral. Suas raízes remontam à década de 1980, quando grupos ligados aos Encontros de Jovens com Cristo, em Boa Viagem, passaram a reunir jovens, famílias e lideranças em torno da oração, da convivência e do serviço cristão.

Com o crescimento daquela comunidade, surgiu a necessidade de consolidar uma presença episcopal anglicana no bairro. Em 10 de fevereiro de 1990, foi inaugurada a antiga Igreja do Bom Samaritano, que, durante décadas, se tornou um importante espaço de celebração, formação, acolhimento e participação na vida da Diocese Anglicana do Recife.

A trajetória, porém, não foi linear. Entre 2005 e 2015, a Diocese atravessou um dos períodos mais difíceis de sua história, marcado pela saída do antigo bispo e de diversas lideranças da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. O templo do Bom Samaritano permaneceu fora da posse da Diocese por anos e chegou a ser fechado.

Naquele período de incertezas, quando a Diocese tinha poucos espaços próprios para se reunir, o Seminário Anglicano de Estudos Teológicos (SAET) tornou-se lugar de encontro e resistência comunitária. Ali continuaram acontecendo celebrações, formações, reuniões e momentos fundamentais para a reconstrução da vida diocesana.

Foi desse tempo de perseverança que surgiu a possibilidade de um novo começo. Em 29 de maio de 2016, sob a liderança do Bispo João Câncio Peixoto e do Rev. Gustavo Gilson Oliveira, a Paróquia do Bom Samaritano foi oficialmente reaberta. No ano seguinte, em 18 de junho de 2017, tornou-se a nova Catedral da Diocese Anglicana do Recife.

Em 2026, portanto, a comunidade celebra dez anos de sua reabertura e nove anos como Sé Diocesana. Celebra também os 36 anos de caminhada desde a inauguração da antiga Igreja do Bom Samaritano. É nesse contexto de memória que a nova construção começa a se erguer.

Quando uma casa termina, a missão continua

 A antiga Catedral de Boa Viagem ocupou um lugar especial na memória da comunidade e na própria paisagem do Recife. Projetado pelo arquiteto e reverendo norte-americano Marston Price, com execução do escritório Arquitetura 4, o templo possuía características marcantes da arquitetura sacra moderna.

Seu formato em losango, os elementos em cerâmica armada, os cobogós com símbolos cristãos e os painéis de azulejos formavam uma identidade arquitetônica singular. Mais do que um edifício, aquele espaço tornou-se casa para diferentes gerações.

Ali aconteceram celebrações, encontros, formações, momentos de oração, atividades ecumênicas e ações de serviço. A antiga Catedral também se tornou espaço de diálogo com a sociedade e de testemunho da presença anglicana no Recife.

Com o passar dos anos, entretanto, a falta de manutenção durante o período em que o templo permaneceu fechado provocou problemas estruturais que comprometeram a segurança da edificação. Em maio de 2024, a Diocese realizou a cerimônia de des-consagração do templo. Meses depois, a antiga construção foi demolida.

A despedida das paredes não significou, porém, o fim da comunidade. “Estamos entre a despedida de nossa antiga casa e a preparação de nossa futura Catedral. Este caminho tem nos lembrado algo precioso: a Igreja não é feita apenas de paredes, mas de pessoas reunidas em torno de Cristo, da Palavra, da Mesa e da missão”, afirma o Rev. Gustavo Gilson, Deão da Catedral Anglicana do Bom Samaritano.

A frase ajuda a compreender o significado da obra que hoje avança no Espinheiro. O novo templo não pretende apagar a memória do antigo. Pelo contrário, nasce carregando aquilo que foi vivido, celebrado e construído ao longo de décadas.

Um novo espaço para uma missão que continua

 Enquanto a construção avança, a comunidade permanece em caminhada. Atualmente, as celebrações acontecem provisoriamente na Capela da UniFafire, na Avenida Conde da Boa Vista, enquanto a futura Catedral e o Centro Diocesano ganham forma.

O novo complexo será mais do que uma sede administrativa ou um espaço destinado às celebrações. A proposta é que ele seja uma casa para a vida da Diocese, reunindo diferentes dimensões da missão episcopal anglicana.

Ali deverão encontrar espaço a liturgia, a formação, a convivência comunitária, o trabalho pastoral, as atividades diocesanas e as iniciativas de serviço. É uma construção que se pretende aberta à Igreja e à sociedade.

O avanço da obra, por isso, tem também uma dimensão simbólica. Cada etapa concluída representa uma comunidade que segue caminhando depois de experimentar a perda de sua antiga casa. Cada laje erguida aponta para a possibilidade de um futuro que começa a ganhar forma concreta.

“Somos e continuaremos a ser um povo peregrino, enraizado no Evangelho, aberto ao novo e chamado a caminhar na fé, na esperança e no amor”, reflete Gustavo Oliveira.

Agora, esse povo peregrino acompanha o nascimento de sua nova casa.

A última laje e o começo de uma nova etapa

A previsão de conclusão da última laje, no início de setembro, marca um momento importante da construção. A partir daí, os trabalhos avançarão para o fechamento da edificação e para os primeiros serviços de acabamento.

Será quando a obra começará a deixar ainda mais evidente aquilo que hoje ainda está escondido entre estruturas, concreto e ferragens: os espaços onde a Diocese pretende celebrar sua fé e exercer sua missão.

O processo também convida a comunidade a olhar para a construção não apenas como uma obra física, mas como expressão concreta de uma caminhada coletiva. Muitas pessoas contribuíram para que esse momento fosse possível, seja por meio do trabalho, da oração, da dedicação pastoral, da participação comunitária ou do apoio à construção.

Por isso, a nova Catedral não pertence somente ao presente. Ela carrega a memória daqueles que construíram a comunidade no passado e a esperança daqueles que continuarão sua missão no futuro.

Em um ano no qual a Diocese Anglicana do Recife celebra meio século de existência, o Bom Samaritano vive um tempo particularmente significativo. A comunidade olha para trás e reconhece a fidelidade de Deus em uma história marcada por recomeços. Ao mesmo tempo, olha para frente e vê surgir, tijolo a tijolo, concreto a concreto, uma nova casa.

A obra ainda não terminou. Há muito a construir, muitos espaços a completar e muitos passos a percorrer. Mas talvez seja justamente essa a beleza de uma comunidade de fé: compreender que algumas obras não terminam quando as paredes ficam prontas. Elas continuam nas pessoas que chegam, nas mãos que servem, na Palavra que é anunciada, na Mesa que reúne, na oração que sustenta e na missão que ultrapassa as portas do templo.

A nova Catedral Anglicana do Bom Samaritano começa, assim, a ganhar forma diante dos olhos da Diocese. E, enquanto a estrutura se ergue no Espinheiro, permanece viva uma certeza que atravessou toda a história da comunidade: uma casa pode ser reconstruída, mas é a fé de um povo que transforma um edifício em Igreja. “Deus nos sustentou em momentos de alegria e de desafio, ajudando-nos a crescer como comunidade de fé, acolhimento, serviço e esperança”, afirma o Deão.

É com essa gratidão que a Diocese acompanha cada etapa. E é com esperança que espera o dia em que as portas da nova Catedral poderão se abrir não apenas para receber sua comunidade, mas para reafirmar, no coração do Recife, uma vocação que permanece a mesma: celebrar Cristo, servir ao próximo e colocar a fé a serviço da vida.