Bispa Primaz compartilha em Nova Iorque experiências sobre a missão da IEAB

A bispa primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), Revma. Marinez Bassotto, está nos Estados Unidos, desde o dia 02/05 (e fica até 8 de maio), a convite do reitor da Trinity Church, em Nova Iorque, Rev. Phillip A. Jackson. A visita foi uma oportunidade de estreitar laços com uma das mais históricas paróquias episcopais dos Estados Unidos, fundada em 1697, e compartilhar a riqueza da vivência anglicana no Brasil.

No domingo, 4 de maio, a bispa Marinez fez o sermão na celebração dominical da Trinity Church, refletindo sobre o amor de Deus, o chamado à justiça e a caminhada da IEAB na missão de servir. Após o culto, ela participou de uma roda de conversa com mulheres da comunidade local, em um encontro marcado pela escuta sensível, partilha de histórias e profunda conexão.

Durante o diálogo, a bispa pôde contar sobre os 40 anos de ordenação feminina na IEAB, compartilhar sua trajetória ministerial, e falar dos desafios enfrentados por mulheres, tanto leigas quanto ordenadas, além das ações pastorais da Igreja no enfrentamento à violência doméstica. Tocada pelos relatos das participantes, a bispa ressaltou a importância do apoio mútuo e da solidariedade entre as mulheres na missão da Igreja.

Acompanhada pela secretária-geral da IEAB, Christina Winnischofer, e por seu marido, Paulo Bassotto, a bispa deve participar, nesta semana, de diversas reuniões com representantes da paróquia, incluindo a junta paroquial, o conselho da Igreja e o departamento de filantropia. A delegação brasileira tem conhecido iniciativas da Trinity nas áreas de sustentabilidade, administração de recursos e ação social, trocando experiências e aprendizados valiosos.

Vale lembrar que o objetivo da visita é permitir que a comunidade da Trinity conheça outros modos de ser anglicano ao redor do mundo. Com a bispa Marinez, eles estão tendo a oportunidade de mergulhar em aspectos da vida da Diocese Anglicana da Amazônia e da atuação missionária da IEAB em contextos de grande diversidade cultural, social e ambiental.

A visita reforça a dimensão global da Comunhão Anglicana e fortalece os vínculos entre Igrejas-irmãs que, mesmo em diferentes contextos, partilham o mesmo compromisso com o evangelho da justiça, do amor e da dignidade para todas as pessoas.

Confira a mensagem pregada pela nossa bispa primaz na Trinity:

 

3º Domingo da Páscoa
(São João 21:1-19)

Querido Phill, clérigos e clérigas da Trinity Church, queridos irmãos e irmãs, eu trago saudações das pessoas da Diocese Anglicana da Amazônia, e da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Eu estou muito animada e me sinto muito honrada em estar aqui com vocês Celebrando e tendo a satisfação de partilhar as minhas reflexões sobre o trecho do Evangelho selecionado ecumenicamente pelas Igrejas Cristãs para o 3º Domingo da Páscoa.

A narrativa de João nos coloca diante de uma das cenas das aparições de Jesus após a ressurreição. Hoje em dia, cerca de 2000 anos após os acontecimentos daquele primeiro dia da semana (Domingo da Páscoa de Jesus), nós estamos bem conscientes das reações dos apóstolos.

Nós seres humanos, geralmente possuímos uma grande capacidade de criar imagens de Deus, de acordo com nossos conceitos pessoais – e não foi diferente com os apóstolos. Eles acreditavam conhecer a vontade de Deus, já haviam determinado (lá no seu inconsciente) tudo o que iria acontecer, já haviam moldado Jesus de acordo com as suas expectativas;

Embora Cristo, repetidas vezes tenha dito que seria entregue a morte, os apóstolos já haviam atrelado a imagem que faziam de Deus somente ao êxito e ao sucesso, por isso ao perceberem o que estava acontecendo, ao verem Jesus ser levado para morte, passaram a desacreditar em tudo o que tinham visto e vivido ao seu lado até aquele momento; viram-se sem chão, o Deus que eles julgavam crer os havia deixado na mão e tudo passou a ser banhado pelo sentimento de derrota e frustração pois suas esperanças não se concretizaram. No entanto, no dia da Páscoa (que parece, pelo relato dos evangelistas, ter sido dia mais longo do ano… pois a sensação que temos é que é um dia que não termina…) De manhã bem cedo, as mulheres vão ao sepulcro para prantear e preparar o corpo do mestre, que julgavam estar morto. Elas recebem a mais maravilhosa mensagem de todos os tempos – Ele está vivo.

Ainda ao final da tarde daquele mesmo dia – o próprio Cristo se coloca no meio deles (relato do evangelho de domingo passado), e ainda naquele mesmo dia (ao anoitecer) caminha ao lado dos discípulos de Emaús… mas mesmo diante da maravilhosa novidade trazida pelas mulheres e comprovada pela presença do próprio Cristo Ressurreto, os apóstolos pareciam incapazes de reagir.

Então somos colocados diante do trecho do Santo Evangelho de hoje, e parece quase inacreditável que após tantas manifestações do ressuscitado, os apóstolos ainda não o reconheçam. Outro fato surpreendente é o fato de Pedro e os outros apóstolos estarem na Galiléia, retornando a sua atividade normal de pescadores

10.Sabemos que muitos dos seguidores de Jesus, ao perceberem qual seria a sua sorte, voltaram as pressas para os seus povoados de origem, muitos escondendo-se e tentando passar incógnitos. Mas esta não era a atitude que se esperava de Pedro e dos outros mais próximos do Cristo – teria o clima de medo, de derrota, de desconfiança se apoderado dos apóstolos, dos amigos de Jesus de tal forma, que mesmo após suas aparições, mesmo após os sinais irrefutáveis da Ressurreição eles tenham decidido retornar aos afazeres corriqueiros como se nada tivesse acontecido, ao invés de se dedicarem imediata e totalmente à pregação do Evangelho?

É muito difícil estabelecer o que realmente aconteceu. Entretanto, fica bastante claro que o evangelista tem a intenção, não só de relatar o que os apóstolos decidiram fazer após a ressurreição, mas também de ensinar pedagogicamente os cristãos e cristãs das suas comunidades.

Eu acredito, sinceramente que o objetivo do Evangelista João não foi criticar as atitudes dos apóstolos – não era fácil, após tudo o que viveram e pelo que passaram aderir rápida e facilmente a fé no ressuscitado,

A reação que apresenta a comunidade após a aparição de Jesus é bastante humana: primeiro não conseguiram reagir, ficaram lá trancafiados e calados, incapazes de proclamar. Depois, quando finalmente adquiriram certa coragem, agiram sem pensar, desordenadamente, procurando buscar o que lhes dava certa segurança – talvez por isso tenham voltado a sua terra natal e aos afazeres corriqueiros, voltaram para o que sabiam fazer com perfeição…

Para mim, a principal intenção do Evangelista João é explicar que Cristo Ressuscitado tem uma vida que foge aos nossos sentidos, e que apesar de não conseguirmos mensurar a dimensão de sua ação, não estamos sós – ele está conosco. Talvez os discípulos tenham pensado que Jesus havia ido para o céu e deixando-os enredados nos perigos e dificuldades do mundo.

João chama a atenção para a dimensão da fé – e este ensinamento é para nós também – pode acontecer, que na viva da Igreja ou em nossas vidas pessoais e familiares, nos dediquemos intensamente, nos munamos de nossas melhores intenções, elaboremos projetos, organizemos programas, na certeza de que nossas iniciativas serão coroadas de êxito; vem depois o desencanto, constatamos o fracasso de nossas melhores intenções e iniciativas e desanimamos.

Repete-se conosco o que aconteceu com os discípulos dos quais nos fala o Evangelho de hoje, estes durante a noite inteira trabalharam, deram tudo de si, mas não conseguiram nada. Por quê? Pelo mesmo motivo pelo qual, tantas vezes os nossos esforços são inúteis – acreditaram que a base eram eles próprios, colocaram a esperança e a fé no lugar errado; quando ao amanhecer eles prestaram a atenção à palavra que lhes chegou da margem, quando seguiram as orientações de Jesus, quando confiaram nele, eis o milagre!

Os apóstolos tinham permanecido na companhia de Jesus durante um longo tempo. Tinham-no visto, ouvido, tocado. Depois tudo acabou e Ele “desapareceu” da vista deles – não foi fácil para eles aceitarem, compreenderem que Cristo continuava no meio deles, entenderem que Ele estava mais perto do que antes. Os Evangelhos destes últimos domingos nos apresentam esta dificuldade, este árduo caminho de fé a ser percorrido. A experiência da comunidade primitiva é semelhante a nossa, nós também devemos conseguir entender que Jesus, está entre nós, está sempre conosco, todos os dias, até o fim dos tempos.

Desde aquela época e a partir daquele pequeno e frágil grupo de pessoas Jesus colocou em nossas mãos uma tarefa, uma importante tarefa. Jesus colocou em nossas mãos a tarefa de sermos sinais de sua presença – é pelo nosso testemunho que outros virão a crer e a seguir sua voz; Ele diária, insistente e incansavelmente se coloca em nosso meio e nos chama para assumirmos esta responsabilidade.

Conta que uma pequena cidade da Europa que foi bombardeada durante a segunda guerra mundial. Havia nesta pequena cidade uma Igreja e na Igreja havia uma estátua do “Cristo Acolhedor”, essa era uma estátua que mostrava Jesus de braços estendidos, pronto para abraçar as pessoas que dele se aproximavam.
Após o bombardeio a Igreja ficou completamente destruída e os moradores resolveram que iniciariam sua reconstrução pela estátua, eles reconstruíram a estátua pedaço por pedaço, mas não puderam reconstruir as mãos da estátua porque haviam ficado muito danificadas.

Então após algumas reuniões eles resolveram que deixariam a estátua sem mãos e colocaram ao pé da estátua a seguinte frase: “Cristo agora só tem as nossas mãos!”

Os desafios de ser Igreja na Amazônia, de ser Igreja no Brasil, e de ser Igreja aqui, nesta imensa cidade – de ser Igreja no coração de New York são possivelmente diferentes, mas igualmente grandes!

Nossa fé nos impele a trabalhar em seu nome, a buscar o seu reino, e a sermos sinais de seu amor e presença no meio deste mundo tão fraturado. Jesus confiou em nós e nos confiou a tarefa de ser Igreja no meio do mundo para que muitos creiam;

Jesus está no meio de nós, ele nos diz – tantos tem sido os meus sinais, tantos tem sido os sinais da minha vitória e vocês continuam aí parados? Que nossas vidas sejam instrumentos de proclamação da ação de Deus, façamos a nossa parte – pois Cristo só as nossas mãos, os nossos pés, as nossas vidas. Que estejamos a cada dia mais dispostos sermos sinais da presença de Cristo no mundo. Amém!