COP30: povos originários tecem alianças globais por justiça climática

Enquanto os holofotes da Zona Azul da COP30 se concentraram nas negociações formais entre Estados, um movimento silencioso mas profundamente significativo acontecia nos espaços da sociedade civil: a construção de alianças entre povos originários de diferentes continentes.

Um desses momentos especiais aconteceu quando Auriene, do povo Arapiun do Pará (Projeto Sucupira), e Jocabed Solano, do povo Gunadule do Panamá e negociadora climática de seu país, compartilharam suas experiências com representantes da Diocese Anglicana de Aotearoa – na Nova Zelândia e Polinésia.

O encontro, facilitado por traduções cuidadosas que iam muito além da língua – traduzindo cosmovisões, lutas e esperanças –, revelou como a crise climática, embora tenha rostos diferentes em cada território, une esses povos na mesma luta por justiça.

Das florestas brasileiras às ilhas do Pacífico

Enquanto Auriene falava sobre a resistência do povo Arapiun na defesa do território, corpos e espírito e dos recursos naturais na Amazônia, Jocabed compartilhava as reivindicações do povo Gunadule frente aos desafios climáticos no Panamá. Do outro lado, os representantes da Igreja Anglicana da Oceania trouxeram as preocupações de comunidades do Pacífico, onde o aumento do nível do mar já é uma ameaça concreta.

Mais que um diálogo, uma costura de futuros

“Esses encontros mostram que a COP30 também é um espaço para curar separações”, refletiu Guilherme, do GT Justiça Ambiental da IEAB. “Enquanto o mundo discute a crise climática e a necessária transição energética justa, nós estamos ouvindo e conectando as pautas de diferentes povos originários”, explicou.

Essas conversas evidenciaram como os povos originários, frequentemente tratados como vítimas passivas das mudanças climáticas, são na realidade protagonistas ativos na construção de soluções – seja através da ampliação da consciência a respeito dos direitos das mulheres indígenas, da gestão territorial comunitária ou da preservação de conhecimentos tradicionais.

O futuro se constrói com escuta

O momento destacou a importância fundamental de processos tradutórios cuidadosos em espaços multilaterais. Não se tratava apenas de traduzir palavras entre inglês, português e espanhol, mas de traduzir mundos, tornando compreensíveis realidades distantes geograficamente, mas próximas em seus desafios e sonhos.

Enquanto a COP30 oficial seguiu seu curso, esses encontros de alma entre povos originários que garantiram que as vozes daqueles que há milênios cuidam da Terra ecoem para além dos corredores de negociação – e se transformem em ações concretas de solidariedade global.