
Entre os dias 5 e 8 de março de 2026, representantes de diferentes países da América Latina reuniram-se em Santiago Sacatepéquez, na Guatemala, para o encontro “Hermenêuticas Decoloniais para a Justiça Socioambiental”, iniciativa promovida pela USPG (United Society Partners in the Gospel).
A atividade reuniu participantes de dioceses da Comunhão Anglicana do Brasil, México, Guatemala, El Salvador e Costa Rica, com o objetivo de fortalecer uma rede de teólogos, estudantes, clérigos e leigos comprometidos com uma prática de fé voltada à defesa da vida, da justiça socioambiental e do cuidado com a criação.
Aqui da nossa Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), participaram os jovens Tiago Silveira Carvalho, da Diocese Anglicana de São Paulo, e Gustavo Xavier Alvarenga, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, além do Rev. Rodrigo Espiúca, da Diocese Anglicana de Brasília, um dos organizadores desse momento. O encontro contou também com a organização do professor, biblista e teólogo anglicano Paulo Ueti, e da reverenda Neli Miranda.

Reflexão teológica a partir de Abya Yala
Inspirado na realidade dos povos de Abya Yala — nome ancestral utilizado por muitos povos originários para designar o continente americano — o encontro buscou aprofundar caminhos de reflexão bíblico-teológica comprometidos com os direitos humanos, ambientais e territoriais.
Em um ambiente de oração, escuta e partilha, os participantes trouxeram experiências de suas igrejas locais e refletiram sobre os desafios enfrentados por comunidades que vivem os impactos da crise socioambiental, da desigualdade social e de modelos econômicos que ameaçam territórios e culturas.
As discussões foram organizadas em torno de três eixos principais: educação, ecologia e justiça social.
Educação teológica e perspectivas decoloniais

No eixo da educação, os participantes refletiram sobre os desafios da formação teológica na América Latina. Reconheceu-se que, muitas vezes, ela ainda reproduz modelos elitistas ou coloniais, distantes da vida concreta dos povos e de seus territórios.
O encontro reafirmou a necessidade de uma educação teológica decolonial e libertadora, que dialogue com os saberes indígenas, afrodescendentes e populares, e que leia a Bíblia em diálogo com a realidade das comunidades, suas lutas, memórias e esperanças.
Cuidado com a criação e justiça socioambiental
O eixo da ecologia destacou a dimensão espiritual e bíblica do cuidado com a criação. A partir de textos das Escrituras, como Gênesis 2.15, Salmo 24 e Romanos 8, os participantes refletiram sobre o chamado cristão a cultivar e proteger a terra.
Também foram compartilhadas experiências concretas de comunidades que enfrentam desafios como a crise alimentar em El Salvador, queimadas em áreas agrícolas no México e a contaminação do lago Lago Atitlán, na Guatemala. Essas realidades reforçaram o chamado das Igrejas a assumirem uma postura profética diante da destruição ambiental e da exploração de territórios.
Compromisso com a justiça social
No eixo da justiça social, as reflexões destacaram as desigualdades estruturais que afetam de forma mais intensa pessoas e comunidades em situação de vulnerabilidade, incluindo mulheres, povos originários, pessoas com deficiência e juventudes.
Os participantes reconheceram as muitas iniciativas de serviço já realizadas pelas Igrejas, mas também afirmaram a necessidade de avançar para uma atuação mais profética, que enfrente as causas estruturais da injustiça e fortaleça a defesa dos direitos humanos.
Juventude anglicana em diálogo latino-americano
A presença dos jovens da IEAB no encontro reafirma o compromisso da Igreja com a formação de novas lideranças sensíveis aos desafios contemporâneos da missão. Ao participar desse espaço de diálogo internacional, Tiago e Gustavo puderam compartilhar a realidade brasileira e, ao mesmo tempo, aprender com experiências de outras comunidades da América Latina.
Como fruto do encontro, os participantes expressaram o desejo de fortalecer uma rede regional de reflexão e ação pastoral que una fé, justiça social e cuidado com a criação, contribuindo para que as Igrejas caminhem ao lado dos povos na defesa da vida e da dignidade de toda a criação.
Para Tiago, “poder conhecer o contexto de outros países da América Latina durante o encontro foi muito importante”. Outro ponto que ele destacou foi o fato de conseguir estar imerso e conhecer as realidades das igrejas locais, das comunidades locais. “Os desafios que eles têm, muitas vezes, são os mesmos desafios que nós temos, mas a forma como cada um enfrenta é sempre diferente. E isso é muito inspirador”, disse.
Na avaliação de Gustavo, “o encontro foi de grande importância e encorajamento para todos os participantes”. Um dos pontos de maior destaque, na avaliação dele, foi o fato de ter sido “abordado durante as palestras a questão da cosmovisão Maia a respeito de teologia, cultura e ecologia”, afirmou.
Fortalecimento de redes latino-americanas
A participação do Rev. Rodrigo Espiúca no encontro também destacou a presença da Diocese Anglicana de Brasília e da IEAB no fortalecimento de redes latino-americanas comprometidas com a justiça socioambiental. Atuando como facilitador da iniciativa Floresta da Comunhão, sua contribuição ajudou a aproximar a reflexão teológica das práticas concretas de cuidado com a Criação, restauração ecológica e defesa dos territórios. Sua presença no encontro expressou o compromisso da Igreja com uma espiritualidade cristã enraizada na realidade de Abya Yala, aberta ao diálogo com os saberes indígenas, afrodescendentes e populares, e voltada à construção de comunidades de fé capazes de articular missão, cuidado da criação e atuação profética em defesa da vida.

Tome Nota
Promovido pela USPG, agência missionária anglicana que há mais de 300 anos atua em parceria com Igrejas em todo o mundo, o encontro expressou as prioridades da organização de repensar a missão, energizar a vida das comunidades e fortalecer o compromisso com a justiça. Ao apoiar espaços de formação teológica contextual, diálogo intercultural e protagonismo das juventudes, a USPG reafirma a sua vocação de caminhar lado a lado com as Igrejas da Comunhão Anglicana na defesa da vida, no cuidado com a criação e na transformação das estruturas que geram pobreza e exclusão.
Créditos das Fotos: Michel Monterros