No princípio, era a Palavra (João 1:1)
E ela se manifestou na Criação e em todas as formas de vida, construindo-se através da História. Contudo, essa diversidade não gerou a beleza desejada; o amor se perdeu, dando lugar à inimizade e ao derramamento de sangue. O mundo se tornou um cenário de guerras e sofrimento, onde Deus tem sido usado para justificar mais violência.
Deus fez um pacto com um povo, que foi escravo por séculos em terra estrangeira, e lhe deu uma terra que deveria ser lugar de uma experiência de vida com justiça e retidão, exemplo para outros povos. Parte inseparável dessa experiência seria uma relação especial de convivência com o estrangeiro, o pobre, o órfão, a viúva. Mas essa terra se tornou lugar de violência, opressão, corrupção e rompimento do pacto. E a história dos profetas bíblicos é continuamente feita pela denúncia desses males.
Vivemos hoje um vergonhoso genocídio que mancha de sangue a Terra Santa, onde na continuação daquela história, um judeu, carpinteiro de Nazaré, chamado Jesus, ensinou que o reinado de Deus é uma ordem de paz e justiça.
A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil se dirige à sociedade brasileira para reafirmar seu compromisso com a justiça, a paz e o respeito incondicional aos direitos humanos.
Condenamos veementemente os atos terroristas praticados pelo Hamas, que atentaram contra a vida e a dignidade humana de israelenses. Exigimos a libertação imediata e incondicional de todos os reféns. O terrorismo não pode ser justificado por nenhuma causa e perpetua o ciclo de dor e destruição.
Mas também reconhecemos e denunciamos que há um genocídio em Gaza, que tem destruído vidas inocentes, causando sofrimento desmedido e expondo as feridas abertas que envergonham nosso século, repetindo os horrores da II Guerra Mundial, que vitimaram milhões de judeus.
Um Estado deve defender a dignidade da vida, não destruí-la. E a defesa contra agressões sofridas deve ser proporcional ao dano. Mas as ações do Governo de Israel violam o direito internacional, estão em desacordo com os direitos das vidas palestinas, exterminando crianças, mulheres e pessoas idosas e utilizando a fome como instrumento de guerra. Investe contra outros países a pretexto de neutralizar ameaças.
Acreditamos firmemente que a única solução duradoura e justa para a região é o reconhecimento pleno e igualitário de dois Estados: Israel e Palestina, coexistindo lado a lado, com soberania, segurança e dignidade para seus povos. Essa visão é sustentada pelo direito internacional e pelo clamor das comunidades comprometidas com a paz.
Reafirmamos nossa condenação inequívoca ao antissemitismo e a toda forma de discriminação, racismo, xenofobia e discurso de ódio. Repudiamos igualmente a islamofobia, a cristofobia e toda violência contra comunidades de fé e igrejas cristãs no Oriente Médio, assim como contra sinagogas, mesquitas e quaisquer lugares de culto, escolas e hospitais. Nos solidarizamos, em especial, com nossos irmãos e irmãs de fé, na Palestina, vitimas dos mesmos ataques sofridos pela população muçulmana e ignorados por cristãos sionistas em toda parte. Como discípulos e discípulas de Jesus Cristo, defendemos a dignidade e a segurança de todas as pessoas, promovendo o respeito mútuo, a liberdade religiosa e a convivência pacífica.
Como comunidade de fé, não podemos nos calar diante da dor dos que sofrem. Cremos que todo ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, merece viver com dignidade, segurança e esperança. Rejeitamos a guerra como caminho e clamamos por um esforço global para restaurar o diálogo, proteger os civis e promover soluções duradouras de paz.
Apelamos à comunidade internacional para que se una em favor da paz e saia do seu imobilismo ao longo deste conflito, rejeitando o ódio e abraçando o valor sagrado da vida humana. Que a compaixão triunfe sobre o medo. Que a justiça abrace a misericórdia. E que a luz da esperança brilhe nos olhos das crianças e dos pais e mães de Gaza e da Cisjordânia. Justiça e paz se abraçarão (Salmo 85:10-13).
Que Deus conforte os corações dos que choram, proteja os vulneráveis e inspire líderes e povos a construírem juntos um futuro de reconciliação. Como embaixadores da paz, renovamos nosso apelo para que a Palavra se faça pão e paz! Enquanto isso, clamamos: Kyrie Eleison!
Câmara Episcopal da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil
Bispa Marinez Rosa dos Santos Bassotto, Diocese Anglicana da Amazônia e Primaz
Bispo Maurício José Araújo de Andrade, Diocese Anglicana de Brasília
Bispo Francisco de Assis da Silva, Diocese Sul Ocidental
Bispo Humberto Maiztegui Gonçalves, Diocese Meridional
Bispo João Câncio Peixoto, Diocese Anglicana do Recife
Bispo Eduardo Coelho Grillo, Diocese Anglicana do Rio de Janeiro
Bispa Meriglei Borges da Silva Simim, Diocese Anglicana de Pelotas
Bispo Francisco Cézar Fernandes Alves, Diocese Anglicana de São Paulo
Bispa Magda Cristina Guedes Pereira, Diocese Anglicana do Paraná