Uma mulher na Cátedra de Agostinho: a Instalação de Sarah Mullally e o que ela significa

Na tarde de 25 de março de 2026, as portas centenárias da Catedral de Cantuária se abriram para receber um momento que a História não esquecerá. Com três batidas de cajado na porta ocidental da Catedral, conforme manda a tradição, Sarah Mullally solicitou entrada e foi recebida por crianças das escolas locais que perguntaram por que ela havia sido enviada. “Fui enviada como Arcebispa para servir a vocês, para proclamar o amor de Cristo e, com vocês, adorá-lo e amá-lo de todo o coração, alma, mente e força”, respondeu ela. 

A cerimônia reuniu aproximadamente 2 mil convidados, incluindo o Príncipe e a Princesa de Gales, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer, primazes das províncias da Comunhão Anglicana, líderes religiosos de diversas tradições cristãs e de outras fés. Entre eles, a bispa primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), Marinez Bassotto.

É a primeira vez na história que uma mulher é Primaz da Igreja da Inglaterra, Arcebispa de Cantuária e, por conseguinte, a líder e Instrumento de Unidade da Comunhão Anglicana, com seus cerca de 85 milhões de fiéis. Sarah Mullally assume como a 106ª Arcebispa de Cantuária, sendo, portanto, a primeira mulher a sentar na cátedra de Agostinho desde o século VI.

Uma vida entre o cuidado e a fé

A trajetória de Sarah Mullally é, em si mesma, um sinal. Ela trabalhou no Serviço Nacional de Saúde britânico por mais de três décadas. Ordenada presbítera em 2002, tornou-se a primeira mulher a ser bispa de Londres em 2018, apenas quatro anos depois de a Igreja da Inglaterra aprovar a ordenação de mulheres ao episcopado, após anos de intensos debates internos.

Sua Instalação não é apenas uma conquista institucional. É o resultado de décadas de luta, oração e perseverança de mulheres que, antes dela, abriram caminhos na vida eclesial anglicana ao redor do mundo.

A voz do Brasil em Cantuária

A presença da bispa Marinez Bassotto nessa celebração não foi apenas protocolar. Foi um testemunho de comunhão e de solidariedade entre mulheres que carregam o mesmo chamado.

Estar em Cantuária, neste dia, foi uma graça que não tenho palavras para descrever completamente. Quando Sarah bateu três vezes naquela porta e declarou que havia sido enviada para servir e proclamar o amor de Cristo, o meu coração se encheu de alegria. Porque suas palavras expressam também as vocações de todas as mulheres que respondem afirmativamente ao chamado de Deus, e que proclamam o amor de Cristo com suas próprias vidas, muitas vezes em meio à resistência. Ver uma mulher sentar na Cátedra de Santo Agostinho é ver o Espírito Santo de Deus, com sua força transformadora, surpreender, renovar, abrir portas que pareciam fechadas. É presenciar a inauguração de um novo tempo, e o fiz com o coração cheio de esperança e amor, na certeza de que esse acontecimento não fortalece apenas as mulheres ordenadas na Comunhão Anglicana, mas inspira todas aquelas que se sentem vocacionadas em todos os lugares ao redor do mundo. E também é um poderoso sinal de que Deus não faz acepção de pessoas, ele nos chama, prepara e comissiona independentemente de nosso gênero, etnia, classe social, orientação sexual ou estado civil. Para nós, da IEAB, a escolha e Instalação da Sarah fortalece o senso de que somos uma Igreja inclusiva e acolhedora, uma Igreja que deseja sempre o diálogo respeitoso entre todas as diferenças”.

Um momento desafiador, mas profético

A Instalação de Sarah Mullally não se deu em tempo de tranquilidade. A nomeação aprofundou divisões dentro da Comunhão Anglicana, cujos membros estão em desacordo em questões como o papel das mulheres e o tratamento das pessoas LGBTQ+. Setores mais conservadores, especialmente da África e da Ásia, acentuaram divisões que levam alguns analistas a temer um cenário de cisma. 

É justamente por isso que o gesto tem peso profético. No juramento prestado durante a cerimônia, Mullally declarou: “Comprometo-me solenemente a servir a Igreja da Inglaterra, a Comunhão Anglicana e toda a Igreja de Cristo em todo o mundo, para que, juntos, proclamemos o Evangelho de Cristo, que nos reconcilia com Deus e derruba os muros que nos dividem.” 

Derrubar muros. Essa frase ressoa como programa de ação e como oração. Em tempos em que o mundo constrói cada vez mais barreiras (entre nações, entre gêneros, entre tradições), uma mulher senta na cadeira mais antiga do anglicanismo e declara que seu ministério é a reconciliação.

A Comunhão Anglicana diante de si mesma

A cerimônia histórica teve dois sinais especialmente significativos de vitalidade: o protagonismo das mulheres na celebração, a presença de bispas de várias partes do mundo, especialmente das 6 mulheres bispas da África e das Mulheres Primazes da Comunhão Anglicana (hoje o Colegiado de Primazes, composto por primazes das 42 províncias da Comunhão Anglicana, possui 4 mulheres); e a presença de múltiplas expressões linguísticas, musicais e performativas de culturas dos territórios onde a Comunhão Anglicana está profundamente presente.

A bispa Marinez Bassotto, ao cruzar o Atlântico para estar presente, levou consigo a fé e a história de milhares de anglicanos(as) brasileiros(as) que há mais de 4 décadas já entendem que mulheres podem — e devem — atuar em todos os ministérios da Igreja.

Além da Instalação: uma agenda de comunhão e diálogo

A viagem da bispa Marinez à Inglaterra foi além da celebração de Instalação. Os dias em torno do evento foram marcados por encontros que revelam a densidade do momento vivido pela Comunhão Anglicana.

Primazes das diversas províncias da Comunhão Anglicana se reuniram para, juntamente com a Arcebispa, dialogar, refletir e orar. Na terça-feira que antecedeu a Instalação, nossa bispa primaz teve a oportunidade de dialogar com lideranças da Igreja da Inglaterra sobre Justiça Racial e os possíveis links entre ambas as Províncias nesta área.

Em resumo, Cantuária, neste fim de março, foi mais do que um endereço: foi um ponto de encontro da Comunhão consigo mesma.