Na capital de Ruanda, durante a histórica IAS 2025 – Conferência Internacional sobre HIV/AIDS, as vozes do Sul Global se ergueram com firmeza para denunciar as injustiças e renovar o compromisso com a vida. O reverendo Magela, reitor da Paróquia Anglicana do Cristo Redentor, em Palmas (TO), e coordenador da Casa A+, esteve presente.
Representando o Brasil como parte da delegação de observadores, Magela levou não apenas sua experiência pastoral, mas a voz de comunidades afetadas e, muitas vezes, invisibilizadas. Também integrou a delegação como membro da Rede Brasil de Pessoas Idosas Vivendo e Convivendo com HIV/AIDS (RBPI), movimento que articula uma resposta ética, intergeracional e pastoral ao estigma.
Durante a Conferência, foram apresentados dados preocupantes. Os cortes no financiamento internacional — como os realizados pelo governo norte-americano — estão gerando impactos devastadores: menos diagnósticos, queda na adesão ao tratamento e interrupção de serviços essenciais.
Em Moçambique, por exemplo, menos pessoas iniciaram o uso de antirretrovirais. Na América Latina, mais de 150 mil pessoas perderam acesso a atendimentos básicos.
O ativista sul-africano Zackie Achmat, em uma das falas mais contundentes da conferência, lembrou que “não se pode acabar com a pandemia de AIDS enquanto as nações africanas tiverem que escolher entre pagar os credores e salvar vidas.”

Entre os testemunhos, destacaram-se as palavras do bispo Emanuel Ernesto, da Diocese Anglicana de Nampula (Moçambique):
“Há muitos desafios aqui na área de AIDS, Malária e Tuberculose. A crise de financiamento nos preocupa muito. Vamos seguir em contato e fortalecer essa ligação com a IAS.”
Esse apelo refere-se especialmente aos cortes promovidos no PEPFAR (Plano de Emergência do Governo dos EUA para o Alívio da AIDS) — iniciados durante o governo Trump — que estão afetando diretamente países como Moçambique e Nigéria, com fechamento de serviços comunitários, demissões em massa de profissionais de saúde e exclusão de crianças, adolescentes, mulheres e populações vulnerabilizadas do acesso ao cuidado.
O que fazer com esses dados?
Frente a essa situação, o reverendo Magela iniciou uma série de articulações inter-anglicanas, com envio de cartas de sensibilização a lideranças e instituições da Comunhão Anglicana, tendo como base o lema: “We Will Not Go Back” – Não Voltaremos Atrás.
Cartas de sensibilização foram enviadas para:
- Bispo Jorge Pina Cabral, Bispo da Igreja Lusitana e Coordenador da Rede Lusófona Anglicana;
- Bispo Maurício Andrade, da Diocese Anglicana de Brasília, com a solicitação de encaminhamento à Câmara Episcopal da IEAB;
- Ao The Revd Canon Dr Duncan Dormor, Secretário Geral e ao Dr. Paulo Uetti, Theological Advisor / Regional Manager for the Americas and the Caribbean da USPG (United Society Partners in the Gospel), histórica parceira global da missão da IEAB;
- Rt. Rev. Mariann Edgar Budde, Bispa Episcopal de Washington (EUA), conhecida por sua posição firme em favor da justiça social.
Na carta dirigida à Bispa Mariann, o Reverendo Magela recorda as palavras proféticas da líder americana ao então presidente Trump em 2020: “O Deus a quem sirvo está do lado da justiça. Jesus chama seus seguidores para imitar seu amor sacrificial…”
Dados que preocupam
- Mais de 30 mil profissionais de saúde foram afetados em Moçambique;
- Queda de acesso à PrEP na Nigéria de 40 mil para apenas 6 mil pessoas/mês;
- Mais de 60% das organizações comunitárias lideradas por mulheres vivendo com HIV** perderam financiamento;
- UNAIDS estima até 6 milhões de novas infecções e 4 milhões de mortes por AIDS entre 2025 e 2029.
